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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Filme inspirado no romance de Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço

 L`Herisson - direção: Mona Achache




A história acontece em um prédio do bairro de Saint Germain em Paris e duas narradoras constróem a trama: a zeladora intelectual que enconde possuir grande lucidez, fã de literatura russa e cinema japonês, e a garota sagaz de 12 anos que, também apaixonada pela cultura japonesa, transita entre os versos de Bashô e os mangás de Taniguchi e angustia-se por não encontrar um sentido para a vida: “as pessoas crêem perseguir as estrelas e acabam como peixe-vermelho no aquário (…)”. Atemorizada com esta perspectiva ela resolve se matar, antes de perder sua sensibilidade.


Entre idas e vindas entrelaçadas com a beleza do wabi, hokkos e tankas que se traduzem em poemas, sutilezas e apreciação de imperfeições… onde o que conta é o que escapa, é o que está nas entrelinhas do cotidiano de cada um… A história vai se desnudando com “pensamentos profundos” e “movimentos do mundo" apontando para um sempre no nunca.


Qual o lugar da psicanálise num contexto onde a procura dos sentidos se faz presente? Abrir-se a outros gozos não sofredores nem parasitários? Gozo da vida? Do saber produzir? Gozo de ser? Tarefa analisante! Para isso trabalha sem magia e sem religião a psicanálise. De um a um e uma entre outras, sem se ter soluções gerais, e por isso há que se retirar de toda a presunção de generalizações.


Vamos oferecer o gozo que acredita perdido? Fácil, breve e com alegria? “Antidepressivo, champanhe e análise(…)” Estão no mesmo lugar? Como diria Chico Buarque “ O que será, que será que me queima por dentro sera que me dá?” … A questão é por que se anestesiar?


O horizonte terapêutico aponta diretamente para o saber (que deveria saber a maneira de resolver o gozo perdido!). Lacan vai nos dizer: necessitamos de mais uma volta “sei que sabe que sei que sabe”. Esse é o truque! Sem definir alvos. Fale! Escutamos os pontos em que se quebra, nas vacilações, nos erros… Fale! De maneira à crítica.


“A fenomenologia me escapa e isso é insuportável,” diz a zeladora.


Renée autodidata, começa a duvidar de seu próprio saber “como toda a autodidata, não tenho a certeza de que aprendi e por isso fico parecendo uma velha louca que acredita que está de barriga cheia só porque leu atentamente o cardápio”.


Análise, lugar da confrontação com nossos limites? Lei da castração! A função não é de aconselhamento ou avaliações e sim o encontro desse sujeito com o real, o acolhimento e a compreensão da imperfeição, já que as visões opostas do mundo, como o bem e o mal, o bonito e o feio, o sagrado e o profano são uma constante afirmação da vida.


“No xadrez tem que se matar para ganhar. No go tem que se construir para viver”, diz a garota.


Paloma ao esperar pela morte, tenta capturar instantes de beleza e aproxima-se cada vez mais de Renée. Com olhos para ver e ouvidos para ouvir, as duas vão re-viver com um misterioso japonês um incrível e inesperado wabi (uma forma apagada do belo com suas imperfeições).


A função do analista? Um Outro consistente? Que não tem buracos, que está num nível aparentemente da perfeição? A aposta aqui é outra: alvo do analista é ser esburacado por seu analisante. Isto é, o Outro descompletado, não é perfeito e nem tem todos os poderes!


A chegada do japonês Ozu vai modificar a existência das duas moradoras. Embora Renée desde o início, estivesse apontando dicas que poderiam levar à descobertas outras… Ozu “escuta” o que ela diz e reconhece a citação da frase inicial de Ana Karenina ( Tolstoi): “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes, são infelizes cada uma a sua maneira (…)” Escutá-la foi a chave para desnudar o ouriço em que Renée se disfarçava…


Paloma faz essa imagem da zeladora sem saber que está descrevendo a si mesma: “A Sra Michel tem a elegância de um ouriço: por fora é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplismente requintada quanto os ouriços que são uns bichinhos falsamente indolentes, felozmente solitátios e terrívelmente elegantes”.


O que ganhamos? Passar de uma miséria neurótica para a infelicidade comum… Lacan vai dizer: “confrontamo-nos com a dor de existir e saber-fazer-ali-com”, ou seja, com os elementos com os quais construiu os sintomas fazer outra coisa. Cai um ideal, no sentido de que não está mais o ou faço tudo, coisas grandiosas, gozo absoluto ou faço coisa nenhuma.


“Perseguem as estrelas

No aquário de peixes-vermelho

Acabar” (Paloma).


“É preciso amar a vida mais que o sentido da vida!” (Renée citando Dostoiésvski)


“ Precisamos desesperadamente da arte. Aspiramos ardentemente retomar nossa ilusão espiritual. Desejamos apaixonadamente que algo nos salve dos destinos biológicos para que toda a poesia e toda grandeza não sejam excluídas deste mundo” (Renée).


Não é a toa que Freud valeu-se inúmeras vezes dos recursos da Arte, da literatura, da mitologia, da filosofia e de muitos outras campos da Criação para explicar suas hipóteses. É como se encontrasse neles recursos para mostrar a dimensão do indizível, do que escapa, do que escapa à possibilidade de ser abordado pelo universo da lógica da consciência.



Ozu, com sua elegância e requinte wabi aproxima os dois ouriços que começam a perder seus espinhos…

Paloma, confrontada com a morte, consegue apreender um sentido possível para a vida. Há esperança na Criação, há que descobrir um sempre no nunca.



“O importante não é morrer nem em que idade se morre. É o que se está fazendo no momento em que se morre (…) por você Renée, perseguirei os sempre no nunca”. Algo de novo surge a partir daí, o que não é pouca coisa. Afinal, o peixe vermelho não se acaba. Será este movimento uma transmissão, e aí uma transmissão inventada, uma Criação?





“Que fazer

Diante do nunca

Senão procurar

Sempre

Em algumas notas frutivas” (Paloma).


                                                                                                                         Carmen Heldt D`Almeida

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