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domingo, 24 de julho de 2011

Considerações Sobre o Impossível

                                                                                                                                    Aline Fiamenghi


Existem coisas que não saem da nossa cabeça, insistem, permanecem, estão por toda a parte, em tudo que vemos, elas nos perseguem, não nos deixam em paz. Tenho a algum tempo, re-encontrado uma palavra: impossível. Dizem que o que não cessa de escrever-se é da ordem da necessidade, e acho que é isso mesmo.

Em português im é um prefixo de negação. Contudo, toda palavra que nega o sentido original parece carregar um paradoxo: falar de algo para falar do que não é. Em inglês in é um tanto genérico, cabe para muitas coisas, mas muito frequentemente significa dentro. Não é o caso de impossible... Mas em uma brincadeira de línguas encontrei o in-possível: estar no possível, ou estar na borda do que é possível.

Slavoj Žižek aponta que o Real não é impossível, como estamos a costumados a pensar, como algo que sempre escapa, mas que o impossível é Real, no sentido que ele acontece. A questão é que o Real acontece, esse é o trauma, isso que é difícil de aceitar ou suportar.

 A falta ou o excesso, o que resta do que é possível simbolizar é o Real. O Real é uma ficção. Segundo aquele autor, a impossibilidade não resulta de um obstáculo positivo, mas é puramente intrínseca: a impossibilidade é produzida como a própria condição do espaço simbólico. Esse é o supremo paradoxo do Real. Não podemos ter tudo, não porque aja algo se opondo, mas porque esse impedimento é estruturalmente intrínseco.

Aqui não posso deixar de lembrar do Anjo Exterminador de Buñuel. Ficamos o tempo todo querendo saber o que impede os personagens de sairem da casa, na expectativa que o mistério seja revelado. Mas esse algo, ou isso, como Freud postulou, que parecia ser da ordem do impedimento, foi produzindo efeitos, foi se revelando sem motivo, mas não sem sentido, ou direção: a porta “fechada”. Não havia uma explicação, mas a sensação de que algo muito real se impunha. Até que algo acontece, também sem explicação, e então cai esse impedimento, e enfim aquelas pessoas já degradadas por sua demasiada humanidade, podem sair. O Real não fica do lado de fora da porta, não é impossível.

Nada melhor do que um filme surreal para tentar falar do isso...

Um outro autor, Jacques-Allain Miller, apresenta o Real como o que cessa de ser impossível, é contingente. Fala do modo de surpresa através do qual o inconsciente se manifesta, na fantasia, no lapso, no sonho.

Pensando sobre isso, senti necessidade de  investigar isso no corpo, por meio da improvisação em dança e tão logo comecei, mais um paradoxo: não seria a dança a própria possibilidade de achar caminhos para situações impossíveis de movimento? O corpo sempre acha um caminho desconhecido, abre novas conexões, invoca outros apoios, oxigena os espaços internos. Com o tempo, todo o movimento foi dando espaço para um estado, que chamei de nheca.

Chamo de nheca um estado, que não é só corporal, é algo que plasma, que gruda, que imobiliza. No corpo aparece como a pausa, o peso, a gravidade e uma certa resistência. O peso de todos os ossos, os orgãos, os tecidos escorrendo para baixo. Sempre para baixo. O que há para além do chão?

Essa pesquisa segue e não pretende achar respostas e sim configurar um campo de experiência. Aponta uma travessia por um território nada agradável, muitas vezes insuportável. Essa experiência corporal e as ideias que a sustentam serão apresentadas no Sarau do umLugar em agosto. São todos convidados!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pequena introdução à psicanálise

Por Alexandre Holtmann Pastore

Uma das perguntas mais freqüentes que se faz a um psicanalista, e cuja resposta não é exatamente simples, refere-se ao “o que”. Ou seja, o que é a psicanálise?

Vou tentar responder isso de uma forma menos técnica, porque ela (a técnica) acaba redundando em mais dúvidas para quem é leigo no assunto, quando uma das maiores conquistas da psicanálise, senão SUA MAIOR E MAIS RELEVANTE CONQUISTA, é dar um lugar para o sofrimento humano. Portanto, já começando a simplificar, a análise é uma forma de terapia, que visa o alívio do sofrimento daqueles que procuram esse caminho, ou essa abordagem terapêutica.

As coisas não podem permanecer tão simples, nesse ponto, e tenho que dizer que a análise tem, em comum com outras abordagens terapêuticas, apenas a intenção de promover uma forma de “cura” das situações de sofrimento. As coincidências, contudo, param por aí, exatamente quando começam a ser necessárias algumas explicações, ou antes, esclarecimentos, porque não estamos falando de algo misterioso ou inacessível, mas sim de uma visão singular e muito própria da abordagem analítica. Trocando em miúdos, a análise enxerga e trata como sintomas o que outras disciplinas costumam abordar como “o problema em si”. Quando a psiquiatria, por exemplo, classifica e trata um “quadro depressivo”, a análise busca desvelar as origens desse sofrimento, analisando seus caminhos e pesquisando suas dimensões não explícitas.

Podemos exemplificar esse tipo de situação de uma maneira simples: “suponhamos uma pessoa que tenha um animal de estimação. Ela tem grande amor por esse animal (aqueles que têm seus “pets” sabem bem do que estou falando!). Elas criam muitos vínculos com seus “amigos de outras espécies”. Vamos supor um caso específico em que esse vínculo afetivo possa estar “encobrindo” ou “tirando do primeiro plano” uma outra falta: uma ausência familiar, uma infância com poucas coisas boas a lembrar, a distância ou a falta de uma pessoa amada. Sabemos ainda que um dos problemas das relações com nossos amigos “peludos” é que eles, geralmente, vivem muito menos do que nós. E um dia, seguindo a ordem natural das coisas, perdemos nosso amigo do peito! A pergunta que cabe aqui, analiticamente falando (lembrem-se de que estamos falando de uma situação simples, mas absolutamente possível) é: “Quantas dores choramos ao sofrer pela perda desse amigo?” – A resposta mais objetiva é: tantas quantos caminhos nossos afetos tenham percorrido e simbolizado nesse amigo que se foi. E quantos apelos esse amor que nos foi dedicado pode evocar? A constância, a lealdade, a fidelidade, o “para sempre”, o incondicional. Quantos vazios e quantas carências podem estar inseridos nessa perda e nesse “amor”? E quanto se perde quando ele se vai?”

Esse tipo de pergunta não tem resposta universal, nem única, nem visível ou direta. Pessoas são seres únicos, com histórias únicas, com amores únicos, com reações que nos diferenciam, que nos tornam singulares e distintos diante do mundo, dos fatos, das “coisas da vida”. E as produções e sintomas criados pelo curso singular e próprio, nesse rio encravado nas almas de cada indivíduo é a parte do mistério, das dores e dos sofrimentos que a análise procura desvelar.

O curso de uma abordagem analítica é o de perseguir o que não está à vista, o que não foi dito, o que não foi possível de perceber ou entender. Os sintomas são a conseqüência que se produz quando as emoções não ganham o acesso à ação ou à palavra, e aquilo que “desaparece” quando se promove esse encontro com o que foi “preciso” esquecer.

Quem já passou por uma análise pode atestar que, em certo sentido, o caminho de uma análise é auto-explicativo. Cada indivíduo que atravessa o curso de uma análise pessoal acaba por entender muito da sua própria dinâmica psíquica, e ganha a condição de se perceber em seus desejos, sofrimentos e sintomas a partir de uma nova perspectiva.

Esse é um convite que se pode fazer a quem passa por uma situação difícil, que se sente sofrendo e quer “se livrar” desse sofrimento. A análise é uma via real, uma oferta de escuta do singular e de apropriação de um espaço que foi perdido durante a jornada, mas que pede passagem na forma de sintomas e sofrimento.

Longe de esgotar esse assunto, que como eu comecei dizendo, está longe de ser simples, gostaria de inaugurá-lo, como um convite a uma segunda olhada, a uma atenção especial e uma consideração muito importante àqueles que estiverem em busca de um lugar para sua dor.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Sarau umLugar - O Mistério da dor de amar - Isana Marília Ribeiro

Como todo mistério, somos compelidos a querer saber ou a nem querer saber do que quer que seja, no caso, sobre o amor. Como Ulisses, que se amarrou –vejam, não é que ele tenha sido amarrado, ele SE AMARROU- ao mastro do navio para que o canto das sereias – e vejam também, as sereias não cessaram de cantar- não o capturassem, não o siderassem, como ocorreu, e cá estamos.
Se todo amor decorre de um equívoco, é importante se equivocar ou arcar com o estado do desenganado. O desenganado está ali, mas morto. Nada mais do que ainda não houve, pode haver, nem mesmo haverá.
Mas há. 
...  E isso atordoa. Ator-doa? Dói e é sobre isso que estamos a falar..
Do ator e da dor, quando dois se encontram é porque em algo puderam se enganar.
Mas, quando se está triste pelo desencontro, que desse encontro pode seguir, pouco se pronuncia uma palavra, um olhar nos faz notar de como não se quer mais investir na relação..., e o eu, de repente, numa noite que poderia ser prazerosa desiste de um jantar e de uma idéia de “nós dois”, em menos de dez minutos.
 Mudos e sem saber o que falar, não é possível querer ver o rosto e estar espantada com o outro, por vezes, capaz de tanta serenidade e alívio. 
 Há algum tempo, era possível sentir o que é estar junto ou separado, - estado de paixão e luto - preparação para o amor e a dor ao mesmo tempo, como aqueles que confundem isso com maturidade.
Freud diz: “Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou o seu amor”.
Mas nosso desamparo não é de onde partimos para a jornada da vida humana, assim como, de expectativas; como será possível um “eu” encontrar um “outro eu” que nos ampare?
Por sorte, nos diferentes momentos deste percurso, encontramos aqueles que primordialmente nos emprestam o simbólico e, até mesmo, seus narcisismos, para constituirmos nosso acervo de ilusões necessárias para enfrentar, numa segunda volta, o que retornará em todos os desencontros com os outros - e com a idéia de vida eterna - que fazem parte da empreitada de todos aqueles que vieram a apostar na vida e puderam, portanto, se deixar enganar pelas vias do amor. Desses encontros e desencontros restam beijos, risadas, algumas vezes filhos, testemunhos mútuos de momentos significativos, muitas vezes nada fáceis. 
E como podemos crer que tal questão, que diz respeito antes a falta, como condição de nossa existência, do que como falha ou carência, poderia ser encerrada pela correspondência amorosa pela qual foi fundamental nos deixarmos enganar na vivência amorosa? 
                           Você não ligaria no dia seguinte, era domingo. O combinado era jantarmos fora naquela noite, parece um século, foi ontem. Decidi seguir a rotina: o que eu fazia aos domingos de manhã? Eu caminhava, então caminharei, falta você e não falta, o atordoamento está diminuindo, será que eu já percebo o acidente? Dou uma, duas, três voltas no parque, você não virá aqui me ver? Volto. Telefono para alguns amigos, não telefono pra você, conto que o relacionamento acabou lamentam mais ou menos, digo que agora é pra valer, quem me acredita?Agora não tem mais volta – dei três voltas no parque, é muito ruim caminhar pra lugar nenhum. Voltei a dizer aos amigos, acabou de verdade, não é isso que quero pra mim, do outro lado da linha acreditava que meus amigos sentiam e entendiam minha do
A dor, quando aparece, vem como um sinal incontestado da passagem de uma prova. Mas que prova? A prova de uma separação. Da singular separação de um objeto que deixando-nos súbita e definitivamente nos transtorna, mas é também o que pode nos obrigar a reconstruir-nos.
Certamente as pessoas choram diferentemente uma das outras. Mas é possível perguntarmos como é difícil perder laços que pra continuar exigiriam suportar o que já vinha parecendo ser insuportável? O insuportável é uma medida que nunca parece ter limite, então se chora. Abandonar uma vida que não se fará mais, sofrer a própria despedida, ter que renascer e buscar um sentido e significado pra tudo que estava acontecendo. Significado? Significantes? 
São lutos sobrepostos: o daquilo que foi possível viver, o das idealizações daquilo que se acreditou estarem vivendo na condição de casal apaixonado ou que viriam a viver... E tudo nas costas do objeto amado que se declara diferente. Mas o luto não é só perda, é também apropriação de algo próprio e exercício de castração. 
Freud diz que o amor consiste em supor o ideal de si mesmo no outro, sendo, portanto, a gênese do enamoramento essencialmente narcísico.
Em 1914, na sua Introdução ao Narcisismo, propõe as idéias de amor objetal e o narcisismo, através dos conceitos de libido de objeto e libido do eu. Assim, assinala a busca da imortalidade do eu, através de uma complementaridade ilusória, efemeramente conseguida pelos apaixonados. É criada, então, uma imagem ideal, tanto de si como de seu objeto amoroso, que vem justamente completar o que falta ao eu para chegar a esse ideal sonhado. Por isso é dito que se ama no outro o que supostamente falta em si.
Na paixão amorosa, visa-se a fusão com um outro como uma tentativa de resgate da relação originária com o outro Primordial - vínculo este marcado pela sensação imaginária de onipotência e plenitude - relação mãe-bebê.
O véu se interpõe na relação sujeito – outro, velando o vazio, a falta que constitui também o outro.
Na fantasia do apaixonado, temos um sujeito aprisionado à imagem de onipotência do eu ideal, angustiado com o esforço ferrenho e ilusório de tamponar a castração, estando assim à deriva constante deste reencontro fatídico.
Paixão amorosa se sustenta numa fantasia de completude de gozo.
Diante do transtorno pulsional introduzido pela perda do objeto amado, o eu apela para todas as forças e se concentra num único ponto: o da representação psíquica do amado perdido. O eu fica inteiramente ocupado em manter viva a imagem mental do desaparecido, como se ele se obstinasse em querer compensar a ausência real do perdido. O eu se confunde, quase totalmente, com essa imagem soberana e só vive amando, e por vezes odiando a representação gráfica desse outro desaparecido, deixando-se, assim, incapaz de interessar-se pelo mundo exterior.
Será que em algum momento um amor deixa de ser nosso, mesmo tendo acabado pra sempre?
Claro que é excelente ter com quem compartilhar nosso erotismo, desejos e gargalhadas; porém, com a condição de incompletude, ao nos depararmos com a perda da pessoa amada, podemos fazer aí, um lugar de elaboração da nossa relação com a castração.
O amante é aquele que demanda, confessando que algo lhe falta e, na esperança de encontrar o outro reparador, nutre uma expectativa de completude e plenitude, evitando, assim, confrontar-se com o vazio de sua condição.
Essa expectativa aparece no amor de várias maneiras sendo a paixão seu motor principal. A idealização, que rege o amor, não é nada tênue, mas podemos admitir que venha sustentar-se na alteridade, falhas, diferenças, faltas, limites do outro e de si próprio.
O problema, do que faz laço entre, nós tem a ver com a questão da troca, que é organizado segundo o princípio do prejuízo. Hoje em dia, as pessoas se casam exigindo a felicidade e, assim, é exigido que o escolhido seja o verdadeiro e único objeto da satisfação do desejo.
A fisiologia do desejo é de sempre desejar outra coisa. Com o desejo fixado no objeto, fica difícil conhecer suas potencialidades e suas outras possibilidades, tornado assim o objeto escolhido persecutório. É comum, também, fazer de seu parceiro o portador de suas próprias dificuldades.
O parceiro que escolhemos existe duplamente em nós: por um lado fora, sob a espécie de um indivíduo vivo no mundo, e por outro em nós, sob a espécie de uma presença fantasmática  articulada ao fluxo imperioso do desejo e  estrutura a ordem inconsciente. É a fantasia que domina todos os nossos comportamentos, a maioria do nosso julgamento e o conjunto dos sentimentos que experimentamos em relação ao amado.
Não sofremos outra dor, se não a dor do desaparecimento daquele que foi para mim o que eu fui pra ela: o eleito fantasiado.
É importante considerarmos no laço a trama quanto ao comprometimento da posição de sujeito, ou seja, a forma de se inscrever no Outro; de ali ter um lugar e de quantas possibilidades podem se apresentar aí para uma posição subjetiva.
O Amor, assim como o ódio e a ignorância, é uma propriedade inerente, misteriosa da condição humana, é Pathos humano que se aloja como o mais nobre sentimento.
Mas, ironicamente, o campo amoroso é o campo da falta, da incompletude,  porque ao reincidir na busca da cura da ferida narcísica original, nos convoca a encontrar um modo próprio de admitir e fazer com esta falta .
Temos que entender o amor como algo produzido. É importante fazermos de uma experiência amorosa uma experiência de potência de expansão advinda de um encontro dos corpos, desde que esse encontro esteja baseado na diferença, sem formato, sem ferramentas de antemão, que nos convoque a uma ultrapassagem de nós mesmos.
 Pensarmos na ideia de amor como sinônimo de felicidade ou de bem-estar, de qualidade de vida, é crer que o que nos causa mal estar e tristeza, é produzido por aquilo que é possível realizar com o objeto.  Quanto maior a expectativa, menos chances delas se concretizarem, isto é, da ordem da cultura que tem a função de produzir asujeitamento, formando pessoas chatas, repetitivas, lamurientas afetadas pela questão amorosa.
 A felicidade não é garantida pela existência de um objeto amado, nem por uma relação amorosa, mas pode fazer parte a depender do que cada um faz disso. É importante passarmos a pensar no amor como produção - pertinente à ordem da experiência de transformação -, como gesto de partilha do cotidiano em relação ao outro, jamais como completude. Amar remete a peças que não se encaixam, mas que se estranham, se transformam e se expandem.
O trabalho da vida é exigido pela aposta da diferença e na expansão, só atingimos a expansão na diferença.
Com nossos avós e pais, a experiência amorosa era admitida como sendo da ordem da paciência, do engolir sapo e da espera. Hoje, não existimos dessa maneira.
Vivemos um momento em que a solidão está começando a adoecer a todos de outra maneira. Estamos nos tornando desqualificados na experiência amorosa. A questão engloba, na verdade, o fato de que nada temos que resgatar, pois não devemos viver o amor como falta, como uma experiência de insatisfação. O pacto amoroso fundamental é quando você pode ter um parceiro na aventura da diferença que nos provoca inevitavelmente: O Mistério da dor de Amar.
Agora, pergunto a vocês, como está a experiência amorosa, hoje, de cada um de nós?
      
                                                                  Isana Marília Ribeiro - 2011

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Música e Psicanálise



por Alexandre Holtmann
Nossa intenção é, em primeiro lugar, partilhar esse filme de estilo biográfico em que João Moreira Salles nos apresenta Nelson Freire, esse maravilhoso pianista brasileiro que, de menino prodígio a pianista maduro convidado às mais reservadas salas internacionais de concerto, fez da música a sua linguagem. 
Sentado à frente do piano, olhos sempre inquietos e de uma profundidade comovente, Nelson Freire é um homem de poucas palavras. Sujeito tímido e reservado, contido em suas demonstrações de afeto, embora visivelmente à flor da pele, constantemente piscando vivamente a evitar as lágrimas, transbordando amor, paixão e encantamento. Tem a rara capacidade de dar vida ao instrumento - que inclusive trata como um ser com vontade própria - às partituras e às emoções e histórias dos compositores cujas obras ele interpreta. E tocando suas obras, toca as mentes e os corações dos que o escutam, cada um impulsionado por seus próprios conteúdos, mas todos igualmente movidos em suas paixões pela força da música.
Historicamente falando, há registros de desenhos que datam de períodos muito anteriores à capacidade do homem de se expressar em palavras, onde aparecem instrumentos musicais, sejam rítmicos ou de percussão, ou mesmo instrumentos harmônicos, habitualmente de sopro. São também conhecidas as referências históricas que trazem o canto em suas formas mais rudimentares como anteriores à fala. E a música tem caminhado de mãos dadas com a humanidade, servindo para erguer os soldados à guerra, celebrar triunfos e abrandar sofrimentos, para enterrar nossos mortos e homenagear nossos célebres. É lugar comum dizer que a música é visceral, e de fato o é. O canto é impulsionado pelo diafragma e tem como “caixa de ressonância” o corpo do cantor: suas vísceras, sua face, sua cabeça. Na verdade, todo o corpo adquire uma função que, praticada e aprimorada transforma o próprio corpo humano em instrumento musical. Mas não é só o canto que modifica o interior do músico. O instrumentista tem seus sensos apurados e cria uma teia de conexões que o fazem perceber o instrumento como uma extensão dele mesmo, através da qual suas emoções fluem de forma a provocar nele mesmo, e naqueles que o escutam, uma enorme onda de reações afetivas e emocionais, da raiva à paixão, do horror ao sublime, do pavor ao alívio mais terno. 
E cada indivíduo será tocado em sua singularidade, no que há de mais íntimo e subjetivo, construindo suas pontes carregadas de afeto, que talvez ascendam à palavra, mas que certamente produzirão seus efeitos.
E a psicanálise, arte de escutar o sujeito e dar lugar às suas questões e estruturação subjetivas, como a música, visa a modificar o indivíduo, não pela via da compreensão ou da apropriação consciente de seus determinantes psíquicos, mas à semelhança da música, pela aproximação de seus afetos, de suas marcas visitadas e resignificadas ao longo de uma biografia única, singular e pessoal. 
E não poderia terminar essa pequena reflexão sobre o filme sem citar uma frase muito significativa do próprio Nelson Freire que, em um mundo de “pop stars”, diz que “a música não é uma competição, e que quando alguém, músico ou crítico, elege o intérprete como estrela suprema do espetáculo, algo errado está acontecendo”.  E certamente algo de muito precioso foi perdido nesse contexto: a riqueza da própria linguagem musical!  

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O que quer dizer $ (sujeito barrado) no logo do umLugar?

Nosso logo foi inspirado numa figura que se encontra no Seminário, livro 23, do psicanalista francês Jacques Lacan. Trata-se da articulação de duas idéias de estrutura muito significativas para a psicanálise: uma
é a de sujeito do inconsciente ou sujeito do desejo, aquele equacionado desde a estrutura da linguagem ,que é efeito da linguagem, sendo sujeito da enunciação e não do enunciado; outra é a menção à Banda de Moebius, idéia de estrutura trazida da topologia (matemática), que implica o modo como nosso mundo interno e externo compõem uma mesma superfície, de forma que faz-se um circuito no qual a fala/significantes circulam e ao percorrem esta superfície realizam o inconsciente. Sendo a Psicanálise uma prática proposta pelo umLugar e que visa a implicação e a sustentação do desejo de alguém via fala -/talking cure/-, reconhecemos nesta figura o signo do inconsciente concebido como estruturado como linguagem, suas produções e circuitos contidos na relação fala X desejo.

Karin de Paula

segunda-feira, 10 de maio de 2010

"umLugar, uma experiência singular" - Claudia Vigna - Rede Clínica de Psicanálise

   Koan são minúsculos casos, situações ou diálogos paradoxais que fazem parte da tradição zen-budista. O koan zen é como uma chicotada. Sua forma breve nos surpreende nos obriga a nos interrogar e não necessariamente a responder.



UmLugar para a experiência subjetiva, sobrepor-se a tendência desagregadora e segregativa, tão conhecida em nossos tempos pelo propósito coletivizante, para que cada um possa falar de si próprio.



A procura de uma reinscrição, a partir do sintoma de cada um na trama social a ser afrontado através do discurso análitico. Abandonar um sintoma atual de não subjetividade e de uma vida sem desejo e poder arranchar -se com o seu próprio sintoma.


A desfossilização do setting como possibilidade não imposta é bem vinda, pois os efeitos psicanáliticos não dependem do setting, mas do discurso, do simbólico, e sobretudo, da ética, e da implicação e empenho do psicanalista. UmLugar aonde o sujeito seja convidado a dizer o “torto e o direito”, não sob o formato “chá da tarde”, ou “troca de duas palavras”, mas que ali possa se instalar a transferência, daí aperceber-se capaz de qualificar o lugar que ocupa, levando essa “transmigração” do ignorado e do equívoco para onde o sujeito possa ser ele mesmo.


Sem pensar na proposição de que “tudo é relativo” senão podemos chegar muito rápido a uma resposta, marca da contemporaneidade, mas sim acreditando na capacidade e na possibilidade de articular idéias e inquietações. O “Encontro” com a psicanálise descumpre o relativo e nos leva ao questionamento da existência. Roland Barthes, no Seminário “Comment vivre ensemble”, no Collége de France, convoca a palavra idiorritmia – idios: próprio, subjetivo e rhuthmos: ritmo, através dessa palavra que volatiza de forma condensada a probabilidade de irmos de encontro ao nosso pé de jaca/mangueira, dos nossos sussurros e porque não, do às de espadas.


A psicanálise pode ser umLugar, um saber transmissão próximo de transmigração? Mas, migrar para onde? De que modo? Sem ética sem beira? Lacan, no Seminário XVI, cria a palavra êxtimo, combinando externo e intimo, constitui o que nos é mais próximo, embora seja externo, mas designa aquilo de que se trata. Não será disso que falamos na análise? Onde simplesmente convocamos o que está no intestino para o cú?


De qual lugar falamos? De qual aposta? De um lugar a partir do qual possa existir a produção da diferença, e assim fazer dessa inquieta rede clínica uma possibilidade. A ética afrontada não como palavra vazia, mas sim com causa eficiente, pois não podemos ser porta bandeira somente em nome de uma pretensa pureza de intenções, mas se sujar com os “objetos” que a causa. Relançar o Sujeito, que busca insistentemente uma economia psíquica frágil, deprimida, murcha e esvaziada para umLugar singular.