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domingo, 24 de julho de 2011

Considerações Sobre o Impossível

                                                                                                                                    Aline Fiamenghi


Existem coisas que não saem da nossa cabeça, insistem, permanecem, estão por toda a parte, em tudo que vemos, elas nos perseguem, não nos deixam em paz. Tenho a algum tempo, re-encontrado uma palavra: impossível. Dizem que o que não cessa de escrever-se é da ordem da necessidade, e acho que é isso mesmo.

Em português im é um prefixo de negação. Contudo, toda palavra que nega o sentido original parece carregar um paradoxo: falar de algo para falar do que não é. Em inglês in é um tanto genérico, cabe para muitas coisas, mas muito frequentemente significa dentro. Não é o caso de impossible... Mas em uma brincadeira de línguas encontrei o in-possível: estar no possível, ou estar na borda do que é possível.

Slavoj Žižek aponta que o Real não é impossível, como estamos a costumados a pensar, como algo que sempre escapa, mas que o impossível é Real, no sentido que ele acontece. A questão é que o Real acontece, esse é o trauma, isso que é difícil de aceitar ou suportar.

 A falta ou o excesso, o que resta do que é possível simbolizar é o Real. O Real é uma ficção. Segundo aquele autor, a impossibilidade não resulta de um obstáculo positivo, mas é puramente intrínseca: a impossibilidade é produzida como a própria condição do espaço simbólico. Esse é o supremo paradoxo do Real. Não podemos ter tudo, não porque aja algo se opondo, mas porque esse impedimento é estruturalmente intrínseco.

Aqui não posso deixar de lembrar do Anjo Exterminador de Buñuel. Ficamos o tempo todo querendo saber o que impede os personagens de sairem da casa, na expectativa que o mistério seja revelado. Mas esse algo, ou isso, como Freud postulou, que parecia ser da ordem do impedimento, foi produzindo efeitos, foi se revelando sem motivo, mas não sem sentido, ou direção: a porta “fechada”. Não havia uma explicação, mas a sensação de que algo muito real se impunha. Até que algo acontece, também sem explicação, e então cai esse impedimento, e enfim aquelas pessoas já degradadas por sua demasiada humanidade, podem sair. O Real não fica do lado de fora da porta, não é impossível.

Nada melhor do que um filme surreal para tentar falar do isso...

Um outro autor, Jacques-Allain Miller, apresenta o Real como o que cessa de ser impossível, é contingente. Fala do modo de surpresa através do qual o inconsciente se manifesta, na fantasia, no lapso, no sonho.

Pensando sobre isso, senti necessidade de  investigar isso no corpo, por meio da improvisação em dança e tão logo comecei, mais um paradoxo: não seria a dança a própria possibilidade de achar caminhos para situações impossíveis de movimento? O corpo sempre acha um caminho desconhecido, abre novas conexões, invoca outros apoios, oxigena os espaços internos. Com o tempo, todo o movimento foi dando espaço para um estado, que chamei de nheca.

Chamo de nheca um estado, que não é só corporal, é algo que plasma, que gruda, que imobiliza. No corpo aparece como a pausa, o peso, a gravidade e uma certa resistência. O peso de todos os ossos, os orgãos, os tecidos escorrendo para baixo. Sempre para baixo. O que há para além do chão?

Essa pesquisa segue e não pretende achar respostas e sim configurar um campo de experiência. Aponta uma travessia por um território nada agradável, muitas vezes insuportável. Essa experiência corporal e as ideias que a sustentam serão apresentadas no Sarau do umLugar em agosto. São todos convidados!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Sarau umLugar - O Mistério da dor de amar - Isana Marília Ribeiro

Como todo mistério, somos compelidos a querer saber ou a nem querer saber do que quer que seja, no caso, sobre o amor. Como Ulisses, que se amarrou –vejam, não é que ele tenha sido amarrado, ele SE AMARROU- ao mastro do navio para que o canto das sereias – e vejam também, as sereias não cessaram de cantar- não o capturassem, não o siderassem, como ocorreu, e cá estamos.
Se todo amor decorre de um equívoco, é importante se equivocar ou arcar com o estado do desenganado. O desenganado está ali, mas morto. Nada mais do que ainda não houve, pode haver, nem mesmo haverá.
Mas há. 
...  E isso atordoa. Ator-doa? Dói e é sobre isso que estamos a falar..
Do ator e da dor, quando dois se encontram é porque em algo puderam se enganar.
Mas, quando se está triste pelo desencontro, que desse encontro pode seguir, pouco se pronuncia uma palavra, um olhar nos faz notar de como não se quer mais investir na relação..., e o eu, de repente, numa noite que poderia ser prazerosa desiste de um jantar e de uma idéia de “nós dois”, em menos de dez minutos.
 Mudos e sem saber o que falar, não é possível querer ver o rosto e estar espantada com o outro, por vezes, capaz de tanta serenidade e alívio. 
 Há algum tempo, era possível sentir o que é estar junto ou separado, - estado de paixão e luto - preparação para o amor e a dor ao mesmo tempo, como aqueles que confundem isso com maturidade.
Freud diz: “Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou o seu amor”.
Mas nosso desamparo não é de onde partimos para a jornada da vida humana, assim como, de expectativas; como será possível um “eu” encontrar um “outro eu” que nos ampare?
Por sorte, nos diferentes momentos deste percurso, encontramos aqueles que primordialmente nos emprestam o simbólico e, até mesmo, seus narcisismos, para constituirmos nosso acervo de ilusões necessárias para enfrentar, numa segunda volta, o que retornará em todos os desencontros com os outros - e com a idéia de vida eterna - que fazem parte da empreitada de todos aqueles que vieram a apostar na vida e puderam, portanto, se deixar enganar pelas vias do amor. Desses encontros e desencontros restam beijos, risadas, algumas vezes filhos, testemunhos mútuos de momentos significativos, muitas vezes nada fáceis. 
E como podemos crer que tal questão, que diz respeito antes a falta, como condição de nossa existência, do que como falha ou carência, poderia ser encerrada pela correspondência amorosa pela qual foi fundamental nos deixarmos enganar na vivência amorosa? 
                           Você não ligaria no dia seguinte, era domingo. O combinado era jantarmos fora naquela noite, parece um século, foi ontem. Decidi seguir a rotina: o que eu fazia aos domingos de manhã? Eu caminhava, então caminharei, falta você e não falta, o atordoamento está diminuindo, será que eu já percebo o acidente? Dou uma, duas, três voltas no parque, você não virá aqui me ver? Volto. Telefono para alguns amigos, não telefono pra você, conto que o relacionamento acabou lamentam mais ou menos, digo que agora é pra valer, quem me acredita?Agora não tem mais volta – dei três voltas no parque, é muito ruim caminhar pra lugar nenhum. Voltei a dizer aos amigos, acabou de verdade, não é isso que quero pra mim, do outro lado da linha acreditava que meus amigos sentiam e entendiam minha do
A dor, quando aparece, vem como um sinal incontestado da passagem de uma prova. Mas que prova? A prova de uma separação. Da singular separação de um objeto que deixando-nos súbita e definitivamente nos transtorna, mas é também o que pode nos obrigar a reconstruir-nos.
Certamente as pessoas choram diferentemente uma das outras. Mas é possível perguntarmos como é difícil perder laços que pra continuar exigiriam suportar o que já vinha parecendo ser insuportável? O insuportável é uma medida que nunca parece ter limite, então se chora. Abandonar uma vida que não se fará mais, sofrer a própria despedida, ter que renascer e buscar um sentido e significado pra tudo que estava acontecendo. Significado? Significantes? 
São lutos sobrepostos: o daquilo que foi possível viver, o das idealizações daquilo que se acreditou estarem vivendo na condição de casal apaixonado ou que viriam a viver... E tudo nas costas do objeto amado que se declara diferente. Mas o luto não é só perda, é também apropriação de algo próprio e exercício de castração. 
Freud diz que o amor consiste em supor o ideal de si mesmo no outro, sendo, portanto, a gênese do enamoramento essencialmente narcísico.
Em 1914, na sua Introdução ao Narcisismo, propõe as idéias de amor objetal e o narcisismo, através dos conceitos de libido de objeto e libido do eu. Assim, assinala a busca da imortalidade do eu, através de uma complementaridade ilusória, efemeramente conseguida pelos apaixonados. É criada, então, uma imagem ideal, tanto de si como de seu objeto amoroso, que vem justamente completar o que falta ao eu para chegar a esse ideal sonhado. Por isso é dito que se ama no outro o que supostamente falta em si.
Na paixão amorosa, visa-se a fusão com um outro como uma tentativa de resgate da relação originária com o outro Primordial - vínculo este marcado pela sensação imaginária de onipotência e plenitude - relação mãe-bebê.
O véu se interpõe na relação sujeito – outro, velando o vazio, a falta que constitui também o outro.
Na fantasia do apaixonado, temos um sujeito aprisionado à imagem de onipotência do eu ideal, angustiado com o esforço ferrenho e ilusório de tamponar a castração, estando assim à deriva constante deste reencontro fatídico.
Paixão amorosa se sustenta numa fantasia de completude de gozo.
Diante do transtorno pulsional introduzido pela perda do objeto amado, o eu apela para todas as forças e se concentra num único ponto: o da representação psíquica do amado perdido. O eu fica inteiramente ocupado em manter viva a imagem mental do desaparecido, como se ele se obstinasse em querer compensar a ausência real do perdido. O eu se confunde, quase totalmente, com essa imagem soberana e só vive amando, e por vezes odiando a representação gráfica desse outro desaparecido, deixando-se, assim, incapaz de interessar-se pelo mundo exterior.
Será que em algum momento um amor deixa de ser nosso, mesmo tendo acabado pra sempre?
Claro que é excelente ter com quem compartilhar nosso erotismo, desejos e gargalhadas; porém, com a condição de incompletude, ao nos depararmos com a perda da pessoa amada, podemos fazer aí, um lugar de elaboração da nossa relação com a castração.
O amante é aquele que demanda, confessando que algo lhe falta e, na esperança de encontrar o outro reparador, nutre uma expectativa de completude e plenitude, evitando, assim, confrontar-se com o vazio de sua condição.
Essa expectativa aparece no amor de várias maneiras sendo a paixão seu motor principal. A idealização, que rege o amor, não é nada tênue, mas podemos admitir que venha sustentar-se na alteridade, falhas, diferenças, faltas, limites do outro e de si próprio.
O problema, do que faz laço entre, nós tem a ver com a questão da troca, que é organizado segundo o princípio do prejuízo. Hoje em dia, as pessoas se casam exigindo a felicidade e, assim, é exigido que o escolhido seja o verdadeiro e único objeto da satisfação do desejo.
A fisiologia do desejo é de sempre desejar outra coisa. Com o desejo fixado no objeto, fica difícil conhecer suas potencialidades e suas outras possibilidades, tornado assim o objeto escolhido persecutório. É comum, também, fazer de seu parceiro o portador de suas próprias dificuldades.
O parceiro que escolhemos existe duplamente em nós: por um lado fora, sob a espécie de um indivíduo vivo no mundo, e por outro em nós, sob a espécie de uma presença fantasmática  articulada ao fluxo imperioso do desejo e  estrutura a ordem inconsciente. É a fantasia que domina todos os nossos comportamentos, a maioria do nosso julgamento e o conjunto dos sentimentos que experimentamos em relação ao amado.
Não sofremos outra dor, se não a dor do desaparecimento daquele que foi para mim o que eu fui pra ela: o eleito fantasiado.
É importante considerarmos no laço a trama quanto ao comprometimento da posição de sujeito, ou seja, a forma de se inscrever no Outro; de ali ter um lugar e de quantas possibilidades podem se apresentar aí para uma posição subjetiva.
O Amor, assim como o ódio e a ignorância, é uma propriedade inerente, misteriosa da condição humana, é Pathos humano que se aloja como o mais nobre sentimento.
Mas, ironicamente, o campo amoroso é o campo da falta, da incompletude,  porque ao reincidir na busca da cura da ferida narcísica original, nos convoca a encontrar um modo próprio de admitir e fazer com esta falta .
Temos que entender o amor como algo produzido. É importante fazermos de uma experiência amorosa uma experiência de potência de expansão advinda de um encontro dos corpos, desde que esse encontro esteja baseado na diferença, sem formato, sem ferramentas de antemão, que nos convoque a uma ultrapassagem de nós mesmos.
 Pensarmos na ideia de amor como sinônimo de felicidade ou de bem-estar, de qualidade de vida, é crer que o que nos causa mal estar e tristeza, é produzido por aquilo que é possível realizar com o objeto.  Quanto maior a expectativa, menos chances delas se concretizarem, isto é, da ordem da cultura que tem a função de produzir asujeitamento, formando pessoas chatas, repetitivas, lamurientas afetadas pela questão amorosa.
 A felicidade não é garantida pela existência de um objeto amado, nem por uma relação amorosa, mas pode fazer parte a depender do que cada um faz disso. É importante passarmos a pensar no amor como produção - pertinente à ordem da experiência de transformação -, como gesto de partilha do cotidiano em relação ao outro, jamais como completude. Amar remete a peças que não se encaixam, mas que se estranham, se transformam e se expandem.
O trabalho da vida é exigido pela aposta da diferença e na expansão, só atingimos a expansão na diferença.
Com nossos avós e pais, a experiência amorosa era admitida como sendo da ordem da paciência, do engolir sapo e da espera. Hoje, não existimos dessa maneira.
Vivemos um momento em que a solidão está começando a adoecer a todos de outra maneira. Estamos nos tornando desqualificados na experiência amorosa. A questão engloba, na verdade, o fato de que nada temos que resgatar, pois não devemos viver o amor como falta, como uma experiência de insatisfação. O pacto amoroso fundamental é quando você pode ter um parceiro na aventura da diferença que nos provoca inevitavelmente: O Mistério da dor de Amar.
Agora, pergunto a vocês, como está a experiência amorosa, hoje, de cada um de nós?
      
                                                                  Isana Marília Ribeiro - 2011

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Filme inspirado no romance de Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço

 L`Herisson - direção: Mona Achache




A história acontece em um prédio do bairro de Saint Germain em Paris e duas narradoras constróem a trama: a zeladora intelectual que enconde possuir grande lucidez, fã de literatura russa e cinema japonês, e a garota sagaz de 12 anos que, também apaixonada pela cultura japonesa, transita entre os versos de Bashô e os mangás de Taniguchi e angustia-se por não encontrar um sentido para a vida: “as pessoas crêem perseguir as estrelas e acabam como peixe-vermelho no aquário (…)”. Atemorizada com esta perspectiva ela resolve se matar, antes de perder sua sensibilidade.


Entre idas e vindas entrelaçadas com a beleza do wabi, hokkos e tankas que se traduzem em poemas, sutilezas e apreciação de imperfeições… onde o que conta é o que escapa, é o que está nas entrelinhas do cotidiano de cada um… A história vai se desnudando com “pensamentos profundos” e “movimentos do mundo" apontando para um sempre no nunca.


Qual o lugar da psicanálise num contexto onde a procura dos sentidos se faz presente? Abrir-se a outros gozos não sofredores nem parasitários? Gozo da vida? Do saber produzir? Gozo de ser? Tarefa analisante! Para isso trabalha sem magia e sem religião a psicanálise. De um a um e uma entre outras, sem se ter soluções gerais, e por isso há que se retirar de toda a presunção de generalizações.


Vamos oferecer o gozo que acredita perdido? Fácil, breve e com alegria? “Antidepressivo, champanhe e análise(…)” Estão no mesmo lugar? Como diria Chico Buarque “ O que será, que será que me queima por dentro sera que me dá?” … A questão é por que se anestesiar?


O horizonte terapêutico aponta diretamente para o saber (que deveria saber a maneira de resolver o gozo perdido!). Lacan vai nos dizer: necessitamos de mais uma volta “sei que sabe que sei que sabe”. Esse é o truque! Sem definir alvos. Fale! Escutamos os pontos em que se quebra, nas vacilações, nos erros… Fale! De maneira à crítica.


“A fenomenologia me escapa e isso é insuportável,” diz a zeladora.


Renée autodidata, começa a duvidar de seu próprio saber “como toda a autodidata, não tenho a certeza de que aprendi e por isso fico parecendo uma velha louca que acredita que está de barriga cheia só porque leu atentamente o cardápio”.


Análise, lugar da confrontação com nossos limites? Lei da castração! A função não é de aconselhamento ou avaliações e sim o encontro desse sujeito com o real, o acolhimento e a compreensão da imperfeição, já que as visões opostas do mundo, como o bem e o mal, o bonito e o feio, o sagrado e o profano são uma constante afirmação da vida.


“No xadrez tem que se matar para ganhar. No go tem que se construir para viver”, diz a garota.


Paloma ao esperar pela morte, tenta capturar instantes de beleza e aproxima-se cada vez mais de Renée. Com olhos para ver e ouvidos para ouvir, as duas vão re-viver com um misterioso japonês um incrível e inesperado wabi (uma forma apagada do belo com suas imperfeições).


A função do analista? Um Outro consistente? Que não tem buracos, que está num nível aparentemente da perfeição? A aposta aqui é outra: alvo do analista é ser esburacado por seu analisante. Isto é, o Outro descompletado, não é perfeito e nem tem todos os poderes!


A chegada do japonês Ozu vai modificar a existência das duas moradoras. Embora Renée desde o início, estivesse apontando dicas que poderiam levar à descobertas outras… Ozu “escuta” o que ela diz e reconhece a citação da frase inicial de Ana Karenina ( Tolstoi): “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes, são infelizes cada uma a sua maneira (…)” Escutá-la foi a chave para desnudar o ouriço em que Renée se disfarçava…


Paloma faz essa imagem da zeladora sem saber que está descrevendo a si mesma: “A Sra Michel tem a elegância de um ouriço: por fora é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplismente requintada quanto os ouriços que são uns bichinhos falsamente indolentes, felozmente solitátios e terrívelmente elegantes”.


O que ganhamos? Passar de uma miséria neurótica para a infelicidade comum… Lacan vai dizer: “confrontamo-nos com a dor de existir e saber-fazer-ali-com”, ou seja, com os elementos com os quais construiu os sintomas fazer outra coisa. Cai um ideal, no sentido de que não está mais o ou faço tudo, coisas grandiosas, gozo absoluto ou faço coisa nenhuma.


“Perseguem as estrelas

No aquário de peixes-vermelho

Acabar” (Paloma).


“É preciso amar a vida mais que o sentido da vida!” (Renée citando Dostoiésvski)


“ Precisamos desesperadamente da arte. Aspiramos ardentemente retomar nossa ilusão espiritual. Desejamos apaixonadamente que algo nos salve dos destinos biológicos para que toda a poesia e toda grandeza não sejam excluídas deste mundo” (Renée).


Não é a toa que Freud valeu-se inúmeras vezes dos recursos da Arte, da literatura, da mitologia, da filosofia e de muitos outras campos da Criação para explicar suas hipóteses. É como se encontrasse neles recursos para mostrar a dimensão do indizível, do que escapa, do que escapa à possibilidade de ser abordado pelo universo da lógica da consciência.



Ozu, com sua elegância e requinte wabi aproxima os dois ouriços que começam a perder seus espinhos…

Paloma, confrontada com a morte, consegue apreender um sentido possível para a vida. Há esperança na Criação, há que descobrir um sempre no nunca.



“O importante não é morrer nem em que idade se morre. É o que se está fazendo no momento em que se morre (…) por você Renée, perseguirei os sempre no nunca”. Algo de novo surge a partir daí, o que não é pouca coisa. Afinal, o peixe vermelho não se acaba. Será este movimento uma transmissão, e aí uma transmissão inventada, uma Criação?





“Que fazer

Diante do nunca

Senão procurar

Sempre

Em algumas notas frutivas” (Paloma).


                                                                                                                         Carmen Heldt D`Almeida

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sarau umLugar - Curadoria: Juliana Froehlich

A Concretude do Olhar

Primeiro agradeço a rede clínica umLugar, pela oportunidade de discutir sobre a produção visual do início do século XXI e principalmente sobre a obra do jovem artista André Ricardo. Caminhando na proposta da exposição, que chama “Recorte Urbanos”, aponto para o recorte do nosso olhar, que escolhe o que sentir e experienciar. Assim como a obra de arte que é um recorte do vivido.

Para exemplificar cito Argan “o modo de fundir e estabelecer uma identidade entre a experiência (a sensação) e o pensamento é a pintura, o único que não só permite acompanhar a transformação, como também transforma concretamente a impressão sensorial fugidia, quase inapreensível, em pensamento concreto, vivido, de modo a realizar a consciência em sua totalidade”.Ou seja, (a pintura) realiza aquilo que é visto, torna palpável o mundo de forma que podemos sempre revistá-lo. Através da pintura, e acrescento através da obra de arte, concretizamos um testemunho do mundo.

Nas obras que vemos nesta exposição podemos realizar nosso vivido das fachadas das casas. Tomamos consciência das situações de intimidade no transporte público, da materialidade das palavras expostas na paisagem que nos invadem, sem pedir; aqui simples elementos do cotidiano, como caçambas e piscinas, se transformam através do recorte do olhar concretizado.

As obras de André Ricardo, em sua maioria, apresentam uma tensão entre figurativo e abstrato, ou seja, formas que reconhecemos e/ou não. Essa tensão nos causa uma familiaridade ao mesmo tempo que um estranhamento, e nessa dialética temos a contemporaneidade. Vemos uma piscina, mas não vemos. Nesse tempo, sem tempo não podemos nos deter aos nossos recortes, e a obra então nos chama para outro tempo, o da contemplação.

                                                                                                        Juliana Froehlich
                                                                                                         Agosto/2010

terça-feira, 17 de agosto de 2010

umLugar - Sarau 14.08: O Olhar e a Obra: (des)estática

   A psicanálise e a arte não tem por hábito se estranhar, porém intriga essa relação delicada. Há muito já se pensa sobre essa condição, por vezes imbricada a ponto de alguns considerarem que o ato psicanalítico possui um tanto de expressão artística. Sendo assim, como se expressaria um psicanalista implicado na sua prática psicanalítica? Interroga-se, interpela-se, supreende-se?

  Uma imagem artística, um encontro analítico consiste num desafio, um exercício de, por assim dizer, enxergar além do que se vê, deixar –se ... no aflorar poético de cada criador. Poderíamos dizer que nesse ato se introduz uma espécie de fenda irreparável entre aquele que cria e sua obra. Por mais que tentemos “explicar”, “justificar’ um pelo outro há sempre algo que escapa pelo simples fato de que na dimensão do ato já temos que incluir o outro e seus efeitos, que a obra produz nos espectadores e analisantes, nas palavras de Marcel Duchamp – “são os espectadores que fazem a obra”. A obra tem vida própria e está além das idiossincrasias, humores e preconceitos de seus autores. Deixar-se olhar. Uma silenciosa abertura ao que não é nós e que em nós se faz dizer. Abrir brechas no discurso, fendas na imagem: instaurar novos lugares.

  Freud em o Mal Estar na Civilização ao dizer que a “Fruição da beleza dispõe de uma qualidade de sentimento tenuamente intoxicante”. Uma espécie de contaminação entre artista e espectador. André Ricardo, ao recortar o urbano, nos inunda de cheiro, cor, movimento e metaforiza a cidade em nós, ora na instabilidade do trem, ora nos corpos revelados, nesse diálogo revela sua potência. Parafraseando Lacan olhar a obra nos desperta e permite que pensemos o mundo que vivemos. Um processo de deciframento – onde “o enigma é o cúmulo do sentido”. A angústia ao evocar um olhar que se evade do olho, mostra o processo de olhar a si mesmo, logo depois de olhar o outro, de ser olhado e , então, de dar-se a ver. A pulsação se assemelha a uma montagem surrealista - uma heterogeneidade que não tem pé nem cabeça, onde o que é fundamental no nível de cada pulsão é o vaivém em que ela se estrutura. Nessa ‘dimensão outra’ da arte encontramos horizonte para um dialógo sob o olhar invisível do Outro. Olho a obra e por ela sou olhado, me tornando co-autor. Olhar a si mesmo - Olhar o outro – Ser olhado - Dar-se a ver – Diante da obra, contempla algo que outros olhos (os do artista) olharam e reconhece a existência do outro. Admira algo (que é a obra) que alguém (o artista que a fez) já viu.

  Ao fixar o olhar na obra as representações escapam, pois o que está sendo representado se torna ausência do que é, se converte em expressão subjetiva e, simultaneamente, matizes de cor, planos, linhas, são reconhecidos na subjetividade do espectador. Tudo que está diante de seus olhos, composto pelo artista, agora é reconstruído a partir de seu próprio olhar confirmando-o como um co-autor. Se o que contemplo (a obra) como parte de mim mesmo é visto por outro (artista), este outro também me olha, pois é meu o que lá está. O espectador compõe tal qual o artista, o vazio da tela diante de si sob o olhar do outro. Se, contemplo, sou um alguém (sujeito) que lança o olhar: um produto de valor comercial que obedece às leis de mercado. No divórcio entre a imagem e o sentido, a arte está livre das amarras das exigências estéticas enquanto do outro lado o espectador deriva em sua solidão.

  A função analítica nos faz falar, assim como a obra nos convoca a isso. O analista se oferce no mesmo lugar que a obra.

                                                                                                                             Claudia Vigna

                                                                                                                                     2010

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sarau 29.06 - Discussão sobre o filme "O segredo dos seus olhos"

A pergunta de seus olhos

Aline Fiamenghi


O filme em questão nessa edição é “O Segredo dos Seus Olhos” de Juan José Campanella, maior audiência nos cinemas argentinos em 35 anos. Ricardo Darín interpreta Benjamín Espósito, que aposentado escolhe para tema de seu livro o caso criminal que mais marcou a sua carreira no Tribunal de Buenos Aires. Na organização dos fatos rememorados, ele revê o homicídio investigado em 1975 e termina por repensar as decisões feitas no passado.

Discutiremos a saga do protagonista na busca pela letra do seu desejo. Na oportunidade de escrever o romance de sua vida, ele percebe, em um jogo de espelhos, como os personagens movidos por olhares, intenções e paixões se denunciam.

“Entre o homem e o amor,
Há a mulher.
Entre o homem e a mulher,
Há um mundo.
Entre o homem e o mundo,
Há um muro”

O que mais me impactou no filme foi a questão do impedimento de Espósito. Como se houvesse um muro, quase palpável para o espectador, o protagonista se aliena da sua condição desejante. Essa (im)possibilidade nos traz angustia.

Espósito se apaixona por Irene na primeira vez que a vê, quando ela ocupa o cargo de chefia em seu cabinete. Desde então eles mantém uma relação estreita, e ele é claramente ambivalente em relação a ela. É angustiante a paralisia perante o pedido de amor.

TEMO, é a palavra que acorda nosso protagonista no começo do filme e o faz estranhar-se. O que há nisso? É como ele soubesse, sem saber, que havia algo ali. Na palavra, uma brecha, uma fissura, que o faz movimentar-se. O que há por trás da vontade de escrever o livro? Ele é o autor de que história?

É nesse ponto e com essas perguntas que seguiremos o percurso do bilhete: TEMO.

O remetente seria algo ou alguém em Espósito, ele próprio autor e endereço dessa mensagem. A saga segue no sentido de recuperar a “letra enigma”, a letra “a”, faltante tantas vezes em sua escrita, em sua máquina durante o filme.

A letra que falta, mas está lá o tempo todo, pedindo um leitor, olhos para ler. Talvez essa seja “a pergunta de seus olhos”, nome da novela de Eduardo Sacheri que deu origem ao filme, oportunamente reeditado. Em castelhano e em português esse pronome possessivo não indica gênero, pode ser dele, dela, de outro, ou dos demais. Os olhos circunscrevem um lugar, um campo de experiência, de tensão do não-dito: sua intensidade, sua atmosfera, sua melodia, a espessura do vivido, e assim, denunciam o impedimento, a inibição, a paixão.

Esse é um filme sobre paixão, a de Espósito por Irene, a de Morales por Liliana, a de Sandoval pela bebida, a paixão pelo futebol: “podemos mudar tudo na vida, menos mudar de paixão”. Essa é a pista que ajuda Sandoval e Espósito a capturarem o assassino. Por que não mudamos de paixão? Onde ela nos captura? Na letra a, o buraco.

Espósito se identifica com Morales, que para ele é o homem que realmente ama, ele diz sobre Morales “ele está sempre em um estado de amor puro, posso ver em seus olhos”. Mas o que será esse estado puro, absoluto? Será que tem a ver com amor?

O amor puro só pode ser a morte, a prisão que encarcera o carcereiro junto ao assassino. Já que a justiça não garantiu pena justa a Gomez, Morales resolve fazer justiça, e dá sua medida ao castigo: prende o assassino e o priva de sua palavra. Nessa recusa da palavra o apagamento do sujeito. É como se Morales quisesse negar existência a Gomes, mas não com a morte, com a prisão perpétua da morte em vida, o que é muito pior.

Ao se deparar com a miséria da prisão imposta pela paixão do carcereiro e do assassino, Espósito se depara com a própria prisão-paixão e consegue sair dessa posição. Quando cai a letra, ele pode lê-la, por “mais complicado que possa vir a ser”, ele não se importa mais: de TEMO à TEAMO, o percurso para uma condição desejante.


São Paulo, 29 de Julho de 2010.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sarau umLugar Maria Ludmila de Oliveira Mourão

Sarau da Rede Clínica de Psicanálise umLugar apresentado por Maria Ludmila de Oliveira Mourão, filme "Uma Relação Pornográfica" do diretor Fréderic Fonteyne . Um homem e uma mulher procuram uma relação centrada unicamente no sexo. Uma relação a princípio sustentada pela fantasia de cada um. Buscavam uma satisfação, tinham uma expectativa de que nada lhes faltasse, uma preocupação que aquela relação se encerrasse ali, naquela satisfação. Tentam, para isso, levar a relação com a fantasia às últimas conseqüências, atribuindo regras. Não podiam saber um sobre o outro, nome, idade, profissão, telefone... Mas será que isso impediria um envolvimento?

Mesmo seguindo as regras, aparecem brechas. Começa então a surgir um incômodo, algo “estranho e pertubador” ao sentir-se desejada e desejante. É, ser objeto do desejo de alguém, “estar nas mãos do outro” ou “ser tudo para o outro” pode ser angustiante, e, às vezes, mortífero. Foi o que impactou a personagem diante do imprevisto ocorrido. Uma mulher, que sacrificou sua vida ao marido, depositando nele o seu ser, se vê, diante de sua morte, sem saída.

Haverá outra forma de amar? Ou ainda: Será isso o amor?
Tentam então recuar, controlar, se esconder...
Na medida em que se colocam em outra posição, não mais narcísica, e sim faltosa, surge então o desejo, algo do amor...
Os medos e as “caretas” puderam aparecer e com isso também a angústia, o vazio!

Queriam apostar, mas diante da incerteza do que lhes iria acontecer, do que significavam um para o outro, não puderam sustentar essa outra condição, que está para além da fantasia.

O filme põe em cena o amor, suas implicações e impossibilidades. Assunto que insiste e persiste na vida, nas relações humanas. Há, em nossa cultura, uma crença de que existe algo ou alguém que possa complementar, satisfazer o outro, se adequando à sua demanda. Assim, para cada panela haveria uma tampa, de dois se faria um, encontrar a cara-metade, seria encontrar o amor. O amor estaria localizado em uma idéia de completude.

Mas será isso a amor? E o desejo, haveria lugar para ele?

Lacan (1960) relança essa questão colocando o amor como uma metáfora. Amar é, antes de tudo, querer ser amado, correspondido. Há um pedido de que um outro lhe dê aquilo que lhe falta. Mas o que este tem para dar não é aquilo que falta ao outro. Há um engano, um desencontro, uma impossibilidade. Nesse sentido amar seria não responder a esse pedido sem metaforizá-lo, já que o que está no cerne dessa questão é mais da ordem desejante (objeto causa de desejo) do que do desejável (objeto de desejo, que está como aquilo que completa). Responder a essa demanda de amor, no sentido de tentar preencher o que falta, seria matar o desejo, recusando a possibilidade de amar.

Há, portanto, para amar, uma constatação e sustentação a se fazer, que é particular e não sem angústia.


Ludmila 2010

segunda-feira, 19 de abril de 2010

umLugar : Comentários de Karin de Paula sobre “Os mais belos peitos do mundo” de Rainer Kaufmann

Comentários de Karin de Paula sobre o filme “Os mais belos peitos do mundo” de Rainer Kaufmann
1. Filme da década de 90, prenúncio de uma questão que se instalaria de maneira contundente na virada do século, quanto às insígnias determinantes do gênero sexuado;
2. Na forma de um /Witz/, de uma palavra espirituosa, Kaufmann estabelece uma coreografia na qual um elemento de valor emblemático(fálico) –no caso os mais belos peitos do mundo- circula e, por onde passa, causa interferências determinantes para posição de quem o detém;
3. Um chiste que coloca uma questão sobre nossa posição sexuada e de como esta determina uma forma de ex-xistência;
4. No início, vemos situado no mundo corporativo (fálico) um homem e uma mulher que se encontram num elevador: ele devidamente fumando um charuto e ela exibindo um par de peitos exuberantes. Tudo “nos conformes”, se considerarmos símbolos estigmatizados que por tanto tempo marcaram a posição do homem e da mulher na modernidade;
5. Ele o empreendedor, fálico, interferindo no circuito produtivo da indústria e do mercado, lançando olhares às bundas e aos peitos que desfilam pelo mundo, perguntando a outros homens onde encontrar as mulheres depois do expediente...
6. Ela, uma secretária sedutora, que lança olhares sedutores aos empresários japoneses em questão, buscando intervir assim na persuasão do cliente, completando a imagem de seu chefe tão pouco viril; mas é claro, quando olhada por um homem no elevador, recolhe-se, quase ofende-se... Poderíamos dizer com Charcot: “A bela indiferença histérica” ...
7. Assim, ela é o falo/ proposição histérica que traz a questão do desejo para pauta do dia;
8. De repente, um fato surreal subverte a ordem das coisas: num novo encontro no elevador entre tais personagens, em meio a sedução e olhares, os peitos da jovem passam para o corpo do galã! OH!
9. A partir daí, assistimos os efeitos deste insólito fato: sem seus peitos, ela vai tornando-se aos poucos cada vez mais fálica, apresenta-se desde outra posição frente ao mundo dos business, não mais seduzindo, mas imputando à cena números, contratos, negócios significativos realizados para sua agencia, desbancando o amante intelectual nabokoviano... É tão caricato que levanta a questão de sob quais condições a mulher acaba por se tornar homem buscando um lugar mais qualificado no mundo... Alternativa não menos histérica que a anterior para a questão...
10.Do lado dele, aqueles peitos... Curiosamente, tal excesso o deixa em falta, não pode ir a sua reunião de trabalho, seguir com sua agenda. Pensa em retirá-los, mas nem mesmo o cirurgião plástico resiste aos seus encantos... Os peitos, agora nele, o torna objeto dos olhares, objeto do desejo e sedução de mulheres, jornalistas, professoras e cientistas. Aos poucos, tal circunstância o conduz para uma posição cada vez mais sedutora, histérica, oferecendo-se como o que completaria o outro, ou seja, como falo;
11. As cenas espirituosas não deixam de fazer surgir o caráter polimorfo e significante das determinações da sexuação no/para o humano;
12.Novo esbarrão no elevador: a troca é desfeita, as coisas voltam a certos lugares menos insólitos... Mas será que como DANTES?????
Karin de Paula
Abril de 2010